
por: Bebel Barros (mamífera convidada)
Este é o título de um livro escrito em 1915 por um pediatra e educador polonês chamado Janusz Korczak. Por diversas coincidências foi o presente que escolhi para mim neste último Natal.
Sua leitura causou-me forte impressão, por se tratar de um dos textos mais “mamíferos” que li, escrito por um homem que não teve filhos, mas não teve medo de afirmar seu amor pelas crianças: “Aquele que diz que se sacrifica por alguém, mente. Alguns gostam de jogar cartas, outros preferem as mulheres, outros não podem perder uma corrida de cavalos; eu amo as crianças. Não me sacrifico, não trabalho para elas, mas por mim. Isso é necessário para mim.”
Por volta de novembro eu li um artigo na revista do clube que freqüento sobre este educador que morreu no campo de concentração de Treblinka em 1942, junto com as duzentas crianças judias do orfanato que ele dirigia no gueto de Varsóvia. É uma história de horror indescritível, como muitas outras que fazem parte da Shoá. Chamou minha atenção o fato de que Janusz Korczak implantou neste orfanato uma espécie de República das Crianças, por acreditar que estas são capazes de se auto-gerirem, com tanta capacidade quanto os adultos.
Semanas mais tarde, eu li um post antigo e curto no blog da psicóloga Rosely Sayão sobre o livro e o título me pareceu tão singelo, tão delicado: afinal não é isso que buscamos como mães e pais? Uma busca na internet com o título e caí em um interessante artigo no site “A Casa de Rubem Alves”, sobre a biografia deste homem ímpar. Ao término da página eu já tinha decidido comprar o livro.
O relato começa sendo escrito do ponto de vista do médico pediatra, carreira que Korczak abandonaria aos 34 anos para se dedicar ao orfanato que criara, e fala sobre a ignorância de tal profissional: “Quero que se saiba que não existem livros, médicos, que possam substituir um pensamento individual (da mãe) vigilante, uma observação atenta”.
Passa pelo parto: “Juntos vocês irão viver um momento decisivo; juntos sofrerão a mesma dor... Ato brutal. Na realidade, não. Você e ele executarão mil movimentos imperceptíveis, maravilhas de habilidade e sutileza, a fim de que, tomando cada um sua parte de vida, não tomem além do que é o devido a cada um segundo uma lei universal e eterna”.
Fala sobre os desafios dos primeiros meses: “Se a jovem mãe pudesse compreender a importância imensa desses primeiros dias e semanas, saberia que a saúde de seu filho depende desse espaço de tempo, que determinará todo o seu futuro, e o de sua mãe também. Entretanto como é fácil desperdiçá-los. ... Não renuncie a essas noites insones. Elas darão a você o que nenhum livro, nenhum conselho, pode lhe dar. Representam uma experiência espiritual que, mais do que a ciência, ensinará os gestos necessários e evitará todos esses pensamentos estéreis: que será necessário fazer? O que é isso?”
E continua com passagens lindas e incrivelmente sensíveis. Acho que gostei tanto porque Korczak toca bastante em um assunto que é especialmente caro para mim: a importância da liberdade para o desenvolvimento de uma criança. Abaixo está o trecho que mais gostei até agora:
“Dedé: bebê da zona rural. Já anda. Apóia-se na ombreira da porta passando, com muita precaução, da sala para o vestíbulo. Uma vez conseguido isto, ele vai ficar de quatro para descer engatinhando os três degraus de pedra que levam ao pátio. Conseguiu! Encontra-se frente a frente com um gato: eles se olham, depois cada um segue o seu caminho. Esta é a primeira meia hora de seu dia que contará com dezesseis. Ninguém para lembrar que ele é apenas uma criança: ele sabe por si mesmo coisas que não estão ainda ao seu alcance. Ninguém para preveni-lo de que um gato pode arranhar, e que não pode descer a escada sozinho. Ninguém para intervir em suas relações com as crianças mais velhas. Então o que pode acontecer é que se machuque: um arranhão, uma cicatriz. Mas não quero dizer com isto que você precisa substituir a super proteção por uma total ausência de certa proteção. Apenas explico que, no campo, uma criança de um ano já vive, enquanto que entre nós um rapaz de dezoito anos apenas se prepara para viver. Quanto tempo lhe será necessário para realmente começar a vida?”
Sou uma leitora voraz e desde que engravidei tenho tido particular interesse em títulos e textos relacionados à criança, à infância, à maternidade. Nestes dois anos e meio li muita coisa, desde livros bem mainstream como os da série “O que esperar quando se está esperando”, até uma dissertação de mestrado sobre a escola que escolhemos para a Raquel, passando, é claro, pelos posts diários do Mamíferas. Mas este livro antigo com gosto de começo do século XX me tocou como poucos. Que texto precursor e ao mesmo tempo tão atual! Por isso, não pude deixar de vir até aqui e recomendá-lo a vocês. Boa leitura!
Como amar uma criança
Autor: Janusz Korczak
Editora: Paz e Terra
Imagem: http://i.s8.com.br/images/books/cover/img9/16169_4.jpg




11 comentários:
Olá,
Cheguei ao seu blog através do da Gi do Lucca. Adorei, me identifiquei com seus posts.
Posso te seguir???
Grande bjo
Fabi
Este agora estará no topo da minha lista! Muito, muito obrigada pela recomendação.
Fiquei emocionada só de ler os excertos que escolheu para a gente!...
Irretocável
Vc e o Korczak sao demais. Vou encaminhar para varias pessoas... Traduz o que penso... Enmpirica e emocionalmente...
Acabei de chegar a este blog.Adorei!!!
Sou uma mãe portuguesa que foi separada, por ordem judicial, da filha mais velha, de uma anterior relação (ela vive com o pai e a família paterna). Isto porque apanhei um juíz que era claramente defensor da "igualdade entre progenitores", ou coisa assim.
Esse juíz considerou um capricho a vontade expressa da minha filha de ficar comigo!!!
Mas apesar de separadas, consegui estreitar a minha relação com ela (tenho-a comigo nas férias). Atrevo-me a dizer que está mais próxima de mim do que do resto da família!
Fiz circular aqui em Portugal esta petição, que já conseguiu ultrapassar o número de assinaturas da petição a favor da "igualdade":
PETIÇÃO PELA SALVAGUARDA DOS DIREITOS NATURAIS DE UMA MÃE!
Destinatário: Assembleia da República
"As piores coisas são sempre feitas com as melhores intenções" Óscar Wilde
É na qualidade de mãe que vive separada da filha (contra vontade, saliente-se, não só minha mas também dela) e de alguém que também suportou a experiência de viver separada de ambos os pais que venho apresentar a Vossa Excelência a presente petição.
Pela minha própria vivência posso dizer, com toda a certeza, de que pior do que estar sem um pai é viver sem uma mãe, e que não há nada pior para uma mãe de que viver afastada de um filho. Tal como sucede na Natureza, em que as crias dificilmente sobrevivem quando separadas da progenitora, e esta tudo faz para as recuperar.
Aliás, a minha petição -que, estou certa, contará com vozes igualmente favoráveis, sendo que algumas poderão partir de homens- rege-se, unicamente, pelas Leis da Natureza.Leis que esperamos ver cumpridas, por serem leis de enorme sabedoria. É da Natureza que retiramos todo o nosso melhor saber e um conhecimento de nós-próprios. Nós somos uma criação da Natureza. Somos parte integrante dela.
Soubessemos nós agir em consonância com as demais espécies, e não seríamos o ser mais desprezível e degradante que existe à face da Terra. Porventura não somos nós responsáveis pelas alterações nefastas que verificamos ao nosso redor?
Entendemos que a Petição pela Igualdade entre ambos os Progenitores não tem razão de ser. Cada um cumpre o seu papel. Assim é na Natureza. O papel de uma mãe, como o de qualquer outra progenitora, é cuidar das crias e zelar pela sua segurança e o seu bem-estar.
Eu entendo -e não serei, acredito, a única- que muito pouco mudou que faça acreditar que a mãe já não cumpre devidamente o seu papel. Antes pelo contrário. Cumpre-o, hoje, melhor do que nunca, assumindo o papel de cuidar do lar e dos filhos (uma tarefa que continua a ser feminina, como podemos constatar nos anúncios publicitários) e de contribuir para o sustento da família.
É insustentável acreditar que a guarda conjunta ou alternada irá acabar com a chamada "Alienação Parental"
Estamos conscientes de que o problema existe. E de que é sobre a mãe, que é quem detém a guarda, que recai as suspeitas de tal comportamento. Ora -sabemo-lo bem- este comportamento tanto parte do progenitor guardião como daquele que não detém a guarda.
Se muitas vezes uma mãe usa os filhos para atingir o outro progenitor, buscando formas de os distanciar, em muitos outros casos -senão na maioria- os seus actos refletem um comportamento animal. À semelhança das restantes espécies,a mãe, sentindo-se ameaçada na sua função de progenitora, reage instintivamente de forma agressiva, afastando todo e qualquer "intruso", inclusive o progenitor (o macho). É um comportamento ancestral que demonstra a nossa verdadeira natureza.
É certo que o ser humano é bem mais complexo do que qualquer outro animal. Por conseguinte, a sua forma de se relacionar com os outros é igualmente mais complexa. Mas o ser humano não difere assim tanto das restantes espécies, e o seu comportamento tem raízes ancestrais.
Não podemos estar mais longe da verdade quando se fala em preconceito e discriminação social em relação aos homens enquanto pais. Porque não se trata de uma cultura desajustada, mas de uma cultura profundamente enraizada num saber que nos aproxima da Natureza.
Ora eu acredito que, pelo facto de impôr ao outro um limite à sua liberdade de escolha (o de poder constituir uma nova família, e habitar onde convenha não apenas a si próprio mas à sua nova família), transgredindo um direito constitucional de todo o cidadão, a guarda conjunta ou alternada poderá, de forma alguma, fazer desaparecer este fenómeno. Antes pelo contrário: irá agravar a "Síndrome da Alienação Parental".
Porque a um progenitor é dada uma difícil escolha: permanecer com o filho e não ter vida própria, ou seguir em frente... mas sem o filho.
Pode alguém ser feliz assim? Pode um filho ser feliz ao lado de progenitores que não o são?
Parece-nos que nenhuma solução que se imponha como obrigação poderá surtir o efeito desejado.Não se faz com gosto aquilo que nos é imposto.
Parece-nos também que punir tais situações -sobretudo se a forma de punir é retirar os filhos ao que agiu mal e atribuir a guarda ao outro progenitor- só serve para as acentuar, não para as atenuar. Há, sim, que prevenir e encontrar outras soluções que desencoragem este tipo de comportamento.
Nós até podíamos fazer uma petição para que toda a criança tivesse o nome de família da mãe. Afinal é ela -isto é, nós- quem cumpre a parte principal em todo o processo, ao gerar, dar à luz e amamentar o filho. E é ela quem, ainda hoje, surge como figura primária, pois que a ela cabe, quase exclusivamente, os cuidados diários e boa parte da educação dos filhos.
Não seria justo?
Mas para quê perder tempo com uma questão de somenos importância? Para nós, trata-se da uma forma de reconhecer o outro como progenitor, dando-lhe o destaque que merece.
Nós apenas pedimos que nos deixem ser mães.
E não, eu não sou retrógrada! Eu sou simplesmente mãe!
Queremos um direito que é nosso. Mas não a todo o custo.
Porque há mães que não merecem ser consideradas como tal! Mães que nos fazem corar de vergonha e indignação!
Nestes casos, e tão somente nestes, a guarda deve ser atribuída ao pai (se este for merecedor, claro).
Eu peço o direito de ser mãe para aquelas de nós que o são, de facto!
Pelo exposto, julgo que haverá que encontrar novas soluções.
A melhor de todas é, a meu ver, aquela que mais nos aproxima da nossa natureza, e dos restantes seres vivos que comunguem dois progenitores.
Sigamos as leis naturais.
O tempo não se faz em horas, nem em dias. É uma perda de tempo reclamar justiça, pedindo o gozo, por igual, de dias ou horas com os nossos filhos. O tempo é o Amor e Dedicação que lhes damos. Cresce em qualidade.
É isso que importa.
No superior interesse da criança!
Os signatários
http://www.peticaopublica.com/?pi=P2009N575
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Tenho outras duas petições:
http://www.peticaopublica.com/?pi=P2010N1300 (para que o Estado Português apoie -financeiramente, e não só- todas as mães que queiram ficar em casa a cuidar dos filhos, nos seus primeiros anos de vida).
http://www.peticaopublica.com/?pi=P2009N134 (pelos deficientes).
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Obviamente, estas petições destinam-se aos portugueses, dentro e fora do país. Mas o assunto também interessa a outras mães. Também elas podem protestar, fazendo uma petição no seu país!
Sugiro a leitura da entrevista a Martin Dufresne: EM NOME DOS FILHOS, OU "O RETORNO DA LEI DO PAI!"
Um abraço:)
Visitem o meu blog FILHO PARIDO NA DOR, FILHO CRIADO COM AMOR! Tenho um grupo no facebook e outro no hi5sob o mesmo nome.
Já agora, visitem os meus outros blogs, e os meus outros grupos (no hi5).
Bjs:)
queria sugerir que os endereços eletrônicos fossem escritos como links nos post..
fico sempre curiosa pra er essas referências, mas nem sem pre acho!!
e obrigada pela indicação do livro!
Gostei da indicacao, vou procurar o livro! Achei mais uma materia sobre Janusz Korczak, se alguem tiver interesse, o link eh:
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/educacao/janusz-korczak-primeiro-grande-defensor-pequenos-507319.shtml
www.baxt.net/blog
Olá. Gostei e vou procurar ler. Fiquei curiosa. Que escola escolheu para sua filha ? E a dissertação? Estou na fase de procurar uma escola para quando meu filho completar 3 anos, mas reconheço que está sendo muuuuuito difícil. Caso não queira responder nos comentários, envie-me um email.
Olá a todas! Muito obrigada pelos comentários.
Aída, posso te responder por email? Por favor me diga qual é o seu email. O meu é bebelbarros@yahoo.com.br
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