
(e de Sofia, de Clara, de Ana, de Maria, de João...)
por: Pauleca (Mamífera convidada)
Conviver com criança é um constante exercício de ouvir, receber e respeitar o mundo do outro. Às vezes sinto que as crianças vivem em um mundo paralelo ao nosso – que, diga-se de passagem, parece ser muito mais interessante!
Costumo recolher e registrar informações sobre o mundo da Teresa desde que ela tinha seus dois anos e meio, mais ou menos. Recuperar suas falas é no mínimo maravilhoso e tenho certeza que cada mãe e pai pode fazer o mesmo com seu filho!
Teresa vive num mundo onde a sala de comer é a “comideira” ou o lugar “comeloso”; o potinho de colheres é o “colhereiro”, Mogli é o menino loboso e a mãe de seu primo Dudu é a Dudusa. Ela prefere carne molhada à carne seca, seu pai tira a barba ao invés de “fazer” e depois que acaba o filme, no cinema, ela quer “ir lá falar com eles”.
Comecinho da noite, aquela lua grande quase cheia já reina bonita no céu. Teresa chama, impressionada: - Mãe do céu! Olha a Lua! Ta com a luz igual a do Sol!!!!!
Dias depois conclui: - Quando o sol recolhe as pétalas fica só a bolinha e ele vira lua!
E continua sua investigação pelo mundo dos astros: - Mãe, se a gente ta dentro do planeta e o planeta ta no céu, então como a gente vê o céu em volta da gente???
Andar de carro no mundo da Teresa é muito mais divertido do que vocês podem imaginar! Alguém por acaso repara quando passa por um túnel de árvores? Ela repara e explica: - Sabe o que é um túnel de árvores, mãe? É quando as árvores se encontram lá em cima, tá vendo aquela ali na frente? Não tá junto com a outra? Então, é um túnel de árvore.
Mas a mente investigativa não pára nunca, tentando decifrar esse mundo adulto do lado de cá: - Mãe, onde acaba a rua?
Eu já tentei de tudo: quando a gente chega em casa; quando chega no mar; quando chega na floresta; quando acaba a cidade. Mas até agora nenhuma resposta foi aceita... Outro dia eu disse que é quando a gente chega em casa. E ela retrucou: - Não, mãe, to falando quando acaba a rua, sabe a rua, esse caminho que a gente escolhe se vai pra cá, ou se vai pra lá, e vai fazendo o caminho? Então, quando acaba?
O que mais me surpreende é o foco que a criança usa na pergunta acerca no mundo. Afinal, só mesmo uma criança perguntaria: - Mãe, é difícil ser mãe? - Mãe, quando o João crescer ele também vai ter peitão? Ou ainda: - Mãe, como a gente engravida? - Mãe, por que o Michael Jackson morreu?
Uff....
Bom mesmo é deixá-los responder às próprias indagações, criar suas teorias únicas, elaborar por si sós questões complicadas pra nós, mas às vezes simples para eles...
- Sabe por que o Michael Jackson morreu, mãe? Porque o coração dele parou de bater, daí ele parou de respirar. Olha, faz de conta que eu vou parar de respirar e morrer!
E depois de um tempo: - Mas por que a gente morre, mãe?
- Sabe por que, Tê? A gente morre pra depois....
- Ah, já sei!! Eu já fiz isso! É assim: vivo! morto! vivo! morto!
Isso, filha, simples como uma brincadeira! E eu que pensei que ela iria desfilar lembranças de outras vidas... Como quando contou que já foi pra Disney, e eu perguntei se foi de brincadeira: - Não, mãe, de verdade. Antes de você ser minha mãe, por isso que você não sabe. Eu fui quando era a minha mãe Juju e meu pai Léo. A gente morava num castelo e o meu irmão tinha um cachorro que dormia numa casinha que era um buraco. Depois que eles morreram que você veio.
Mas outro dia ela me disse que a mãe Juju dela não existe, ela estava só brincando!
Às vezes a realidade se mostra cruel e dolorida. Como o nascimento do irmão, tão esperado, aguardado e sonhado, mas também tão cruamente real: não tem nada de fantasia no fato da mãe não estar mais inteira e exclusiva para ela!
Uma das reações da Teresa quando João nasceu foi começar a tropeçar e cair. Primeiro levou um tombão da cama, poucos dias depois foi de cara no chão; no outro dia mais uma queda de cima da cama e em seguida um escorregão no chuveiro, do qual levantou chorando ofendida e dolorida. Declarou: - Eu tô me quebrando toda!
Cruel verdade!
Ainda assim a vida lhe parece simples: - Depois eu vou crescer e vou ter trinta anos que nem você, e eu vou dirigir e vou ter um "irmão" na barriga que vai chamar Gabriel!
Ou então: - Mãe, eu quero uma irmã!; -Ué, Tê, mas onde a gente vai arrumar uma irmã?
Fingindo que pega alguma coisa do chão com as duas mãos, Teresa explica: - A gente pega a irmã, põe na barriga da Mamãe, daí espera um tempão ela 'nascendo'.
Um mundo simples que por vezes esbarra em uma complexidade incompreensível, caótica e talvez desconexa. Nesses momentos as reflexões surpreendem: - Ai, mãe, hoje a vida ta muito difícil, né?; - Por que, Tê?; - Ta com muito caroço; - O que é o caroço da vida?; - Nossos desejos...
Desejos, frustrações, fantasias... sonhos: - O sonho é um ensaio. Sim, ela disse isso. E desse ensaio já nos trouxe alguns relatos:
Sorridente: - Mãe, sabe o que eu sonhei hoje? Com coração!
Sussurrando, e com animação na voz: - Mãe, sabe o que eu tava sonhando? Com um corpo que era todo de mola! E o braço virava assim!
Com ar tristonho: - Mãe, eu sonhei que eu tinha 'se' perdido de você. E você tinha se perdido de mim.
Com medo, chorando: - Mãe, eu sonhei que você e o João entraram num buraco dentro do mar e se afogaram, e eu fiquei no colo do papai!
E assim a vida é muito mais que sobrevivência; é vivência intensa, emocional, passiva. Afinal, sabem o que é sobreviver? - Sobreviver é uma palavra que é assim: quando você vive um pouco mais e depois já vai morrer.
De minha parte nem preciso dizer o quanto aprendo diariamente convivendo com essa pessoa chamada Teresa, que quando é abordada por um senhorzinho brincalhão no parque: - Teresa! Você é de São Paulo ou de Fortaleza?
Responde:
- Sou do Corinthians, mano!!!














